Jornada de trabalho e criação de emprego

A questão do trabalho está inserida no contexto da globalização. Globalização financeira e globalização do trabalho. A globalização financeira é uma 'bolha virtual', cujo valor é 50 vezes o valor das mercadorias. É portanto, inflada, especulativa. Ela implica em menor poder do Estado. Não se reconhece mais a figura tradicional do empresário. Os proprietários desta 'bolha' são também virtuais: fundos de pensão, caixas de aposentadoria. Os operadores destes fundos é quem tem o poder, a gerência do dinheiro e não os seus proprietários. As decisões sobre estes recursos são sempre de curto prazo. E todos ficam de olho no trajeto da 'bolha'.

O capital financeiro é fluído e magnético. Vai do pólo positivo ao negativo. E isto relaciona-se com o movimento do trabalho. O positivo é onde o trabalho custa mais. O negativo é onde o trabalho custa menos. E o trabalho se desloca cada vez mais entre as fronteiras. Atualmente, existem trabalhadores qualificados no Vietnã cujo salário é equivalente a cem doláres. Engenheiros muito qualificados na Tailândia e na Índia competindo com os engenheiros de outros países. Costuma-se associar estes países mais pobres ao trabalho desqualificado, mas não é assim. O problema é que diferentemente do capital, da 'bolha virtual', o trabalho não está organizado globalmente. Não há, por exemplo, um sindicato dos engenheiros do Mercosul.

Costuma-se atribuir à revolução tecnológica em curso como uma etapa a mais na história das inovações e não se percebe a mutação completa que está acontecendo na maneira de produzir. Durante muito tempo, produzimos com base em energia (energia humana, energia do animal, do vento, do carvão etc.). Hoje, precisamos de muito pouca energia e quase nenhum trabalho. A riqueza é cada vez mais imaterial. Portanto, não se trata de apenas uma adaptação. O que está acontecendo é algo mais profundo e fundamental. É preciso modificações também na nossa mente, nas estruturas. A Internet está mudando profundamente o modo de vender. E a Internet vai ter 300 milhões de usuários no ano 2.000.

Quanto à redução da jornada de trabalho, na França ela acontece mais com o trabalho operário. Os executivos reclamam que trabalham demais. Antes, não se contava o tempo de trabalho dos executivos. Os sindicatos resolveram contar e viram, através de pesquisas, que os executivos estão totalmente fora do regime de 39 horas. A metade dos executivos faz mais de 46 horas semanais, 25% trabalham 50 horas e os outros 25% fazem entre 51 e 60 horas. Quanto às características do trabalho destes profissionais, quatro são muito importantes:

  1. autonomia: trabalho fora da empresa sem proteção de um contrato;
  2. contrato por tempo determinado (80% dos executivos na França são contratados assim);
  3. poliatividade;
  4. sistema de tempo partilhado (time-shering), em que se trabalha em várias empresas ao mesmo tempo.

Trata-se de um sistema selvagem onde a solução para a sobrecarga é a demissão. Há o lado positivo deste processo que é a independência, a responsabilidade, a liberdade de administração da vida, do tempo de cada um etc.. Mas, o lado negativo, que é preponderante, é a precarização e a insegurança deste trabalho fragmentado, sem contrato.

Neste quadro de dificuldades de gerar emprego, com a tecnologia destruindo empregos, o capitalismo selvagem prega que as empresas devem ser livres para fazer o que quiser. Também pregam o fim da proteção social pública aos emprego, como vem acontecendo, principalmente, nos Estados Unidos e na Inglaterra (cujas estatísticas sobre desemprego são bastante questionáveis). Estas idéias têm muita força e Gary Baker ganhou o Prêmio Nobel defendendo estas idéias.

Existem os que não raciocinam só a curto prazo e buscam estratégias para geração de mais empregos. Existem três alternativas tradicionais:

  1. A via clássica do crescimento em que o Estado tem papel importante. Esta estratégia é importante mas é limitada porque há uma limitação para o nível de crescimento. Mundialmente o crescimento é em torno de 3% anualmente e entre 2 e 3% na Europa. Não se deve superestimar a capacidade de crescimento da economia e mesmo ela crescendo cria menos empregos.
  2. Abaixar os custos de trabalho diminuindo os encargos, que é a estratégia do Governo Jospin, na França, diminuindo os encargos sobre o trabalho e aumentando o imposto sobre os rendimentos do trabalho e do capital.
  3. Criar pequenas empresas as quais criam muito trabalho. Numa região da Itália o desemprego é zero em decorrência do papel e do peso das pequenas empresas. Nem sempre as condições são assim tão favoráveis e esta alternativa é também limitada.

Existem outras três novas estratégias alternativas:

  1. Redução coletiva da jornada de trabalho: se for progressiva, implicando em poucas horas a cada redução, não adianta. A produtividade absorve. Para gerar impactos positivos tem que ser maior a redução: de 6 a 8 horas. Quem paga por isso são as três partes: Estado, empresa e trabalhadores. Trata-se de uma redistribuição da renda. É preciso que todos ganhem. Existem estratégias que defendem que não haja diminuição dos salários. Mas o desemprego faz com que os trabalhadores topem ganhar menos para ter o emprego. Um exemplo disso é o trabalho em tempo parcial que na França representa 16% dos empregos e 30% na Holanda. A semana de quatro dias é uma experiência que se alastra na França. O Estado é fundamental neste processo não só gastando mas também gestando o processo. O Estado deve dar dinheiro se efetivamente as empresas criarem empregos.
  2. Fortalecimento do terceiro setor, como apregoa Jeremy Rifkin, em que se privilegia criar oportunidades de trabalho através do atendimento de necessidades sociais, aproveitando e reciclando as pessoas que estão sem o que fazer. Envolve muitas áreas como saúde, família, educação, transporte, justiça e outras. Para isso deve-se incentivar associações comunitárias, regionais ou nacionais através de concessão de incentivos fiscais aos seus patrocinadores.
  3. salário social que garante a renda mínima. Isto é básico. Antes de qualquer medida é preciso garantir que as pessoas tenham o mínimo para sobreviver.

As conclusões que se pode tirar são três:

  1. estamos só no começo do problema e a situação tende a se agravar;
  2. a racionalidade econômica não pode comandar tudo, é preciso reintroduzir a importância do contrato;
  3. o mais complicado não são os recursos e sim o imaginário. É preciso mais energia social, mais imaginário coletivo neste processo. É preciso um projeto social. A urgência está na produção de idéias.

A situação brasileira é de queda do emprego para os engenheiros. Os postos de trabalho diminuem a razão de 1,5% ao ano, ou seja, 15% nos últimos dez anos. Neste período, no Estado de São Paulo foram eliminados 7 mil empregos e no país todo, 25 mil postos de trabalho foram cancelados. Com isso, os engenheiros estão migrando para outras atividades, mas, sobretudo, ficando desempregados. A solução para isto está em mais engenharia. Mais engenharia significa mais empregos para todos. Desenvolvimento baseado em engenharia é a grande saída porque cada engenheiro contratado significa mais tantos outros trabalhadores contratados (a relação é de 1 para 20 na construção civil, por exemplo). A redução da jornada, as cooperativas de trabalho e outras propostas do gênero são medidas apenas paliativas. O que se precisa mesmo é de uma economia estável e de baixas taxas de juros que viabilizem o investimento produtivo, o investimento em engenharia.


O conferencista

Guy Asnard

Veja um perfil de Guy Asnard.


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