Empregabilidade: ameaça ou oportunidade?

O termo empregabilidade ganha significado quando vinculado à globalização. A internacionalização hoje tem três características fundamentais. A primeira, e o que há novo, é que com o colapso do socialismo como alternativa de produção ao capitalismo parece ter havido uma liberação geral.

Outra característica é que o suporte técnico e as bases materiais passam a ter grande peso na vida em sociedade e que as coisas ficam velhas antes que se possa acostumar com elas. A terceira característica é o domínio financeiro que jamais teve tanto poder como hoje, comandando indivíduos, empresas e governos.

O balanço disso tudo é o desemprego, a maior endemia da humanidade. Os números são aterrorizantes, e as projeções mais ainda, se aceitarmos a tese da irreversibilidade. Outro elemento é a frustração, que, com a desqualificação, cria a lógica da desigualdade: milhares se beneficiam, milhões ficam fora.

A empregabilidade deve ser entendida como capacidade de se empregar produtivamente, de ter quantidade de emprego disponível, propiciar qualificação profissional e humana com remuneração adequada.

O essencial é que é preciso enfrentar o problema do desemprego sem deixar-se engolfar por ele. O Brasil precisa de política industrial e agrícola, política comercial e combate aos juros altos. Precisa produção, produtividade, crescimento, progresso. Os trabalhadores, os engenheiros, o movimento sindical, devem empunhar essas novas bandeiras de luta.

No passado, a luta pelas quarenta horas de trabalho semanais foi indicador de transformações históricas produzidas pela Segunda Revolução Industrial. Hoje a conquista das 30 ou 35 horas, luta que se dá na Europa, nos EUA e no Japão, tem a mesma importância histórica. A redução da jornada de trabalho abre tempo livre para o lazer e a formação.

Uma segunda linha de ação são as soluções parciais positivas de alcance temporário, como as cooperativas. No entanto, só são válidas se não constituírem capitulação à luta pelo emprego.

A terceira proposta é a do pacto produtivista. Os produtores precisam se unir. Empresários, engenheiros, trabalhadores precisam se unir para enfrentar a esfera da especulação. O sistema de representação tem que se esforçar para mudar e adotar iniciativas produtivas.

Três pontos são fundamentais para organizar a interpretação do problema da empregabilidade. Primeiro, as novas exigências profissionais; segundo, que essas exigências se dão num quadro de retração de oportunidades, e, por último, as conseqüências sociais do processo que está se desenvolvendo.

O pano de fundo é a Terceira Revolução Industrial, que se dá conjuntamente com profundas transformações gerenciais, que ultrapassam o âmbito das empresas e abarcam o conjunto das instituições. Não é só um novo padrão tecnológico que sofre alterações, mas a própria empresa e a estrutura ocupacional.

No Século XX vimos surgir o trabalho assalariado em massa. Isso está mudando as carreiras, as hierarquias funcionais estão desaparecendo e hoje se vê a redução do número de assalariados de um lado e, de outro, o florescimento do trabalho autônomo e do negócio próprio.

A retração das oportunidades não é um fenômeno tecnológico, produtivo ou mesmo econômico. É resultado do predomínio do capital financeiro em escala mundial. Ou seja, da massa de 15 a 45 trilhões de dólares que fica girando unicamente no circuito financeiro. Se esses recursos se dirigissem à produção, seguramente não haveria desemprego.

As conseqüências sociais são visíveis. Perplexidade generalizada em todo o mundo. Mesmo os países mais desenvolvidos não encontram solução para o desemprego, porque estão todos prisioneiros do capital especulativo. E, como não se consegue alterar o predomínio financeiro, ficamos sem solução.

No Brasil, o que vemos é a retração da produção em todos os setores, e isso resulta da abertura descontrolada que se inicia nos anos 90, onde a indústria nacional é esmagada com a destruição de postos de trabalho, o que continua ainda hoje.

Com as importações, estamos comprando produtos mais baratos e, numa equação perversa, tirando empregos. Não há projeto de desenvolvimento e sim uma política de "desindustrialização".

A crise financeira dos Estados agrava a situação. Sem que haja capacidade de investimento dos estados, não há saída. Não haveria solução à miséria do pós-guerra sem o gasto público.

Proposta para superar o impasse, para o Brasil, só uma. Reconquistar o padrão de desenvolvimento que privilegie o crescimento na área produtiva, na indústria, na agricultura, em todos os setores. No plano individual, o caminho para a saída começa por superar o individualismo, por reforçar a consciência de cidadania.


Os conferencistas

João Guilherme Vargas Neto, Waldir José de Quadros e Roberto Mangabeira Hunger

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