Artigo do programa
Pesquisa cooperativa

A Pesquisa Cooperativa como Solução para o Desenvolvimento Tecnológico

Fernando Cosme Rizzo Assunção

Introdução
A pesquisa cooperativa é um processo já conhecido e muito eficaz para a solução de problemas tecnológicos, sendo responsável por um grande número de realizações que representaram importantes avanços para a sociedade. Um exemplo de sucesso deste tipo de pesquisa foi o programa espacial americano, em que a NASA liderou um ambicioso esforço de desenvolvimento tecnológico, agregando universidades, centros de pesquisa e a própria indústria. Também é comum a formação de grupos de pesquisa em que vários componentes da cadeia de produção se reunem para a solução de problemas específicos. Neste tipo de agrupamento, de caráter vertical, reune-se a competência específica dos vários setores, começando pela geração de conhecimento na universidade e contando com a contribuição de outros elementos da cadeia de produção, cada qual participando em um aspecto da transformação de uma inovação em um produto com valor de mercado.

Menos frequente é a experiência que se procura nuclear dentro do programa RECOPE do PRODENGE, em que são formadas redes de pesquisa com forte componente horizontal, isto é, com a participação simultânea de vários grupos de pesquisa ou de indústrias concorrentes, no desenvolvimento de projetos cooperativos. Por este motivo, é conveniente discutir as vantagens decorrentes desta abordagem, assim como destacar as oportunidades e os riscos envolvidos nesta empreitada.

Entre as vantagens óbvias proporcionadas pela pesquisa cooperativa destacam-se a complementariedade proporcionada pela agregação de competências, a redução do custo de pesquisa e desenvolvimento e o sinergismo provocado pela eficiência com que os diferentes parceiros abordam os problemas que lhe são mais afins.

Já na questão da oportunidade, cumpre ressaltar a eliminação de distâncias e a crescente interatividade oferecida pela informática e pelos meios de comunicação. Deste modo, os participantes de uma rede podem ter à sua disposição recursos avançados de pesquisa, incluindo o acesso imediato e constante a grupos de competência estabelecida.

Um benefício concreto que se pode prever é o apoio à implantação de grupos de pesquisa em regiões isoladas, queimando etapas na capacitação e consolidação de novos grupos de pesquisa e reduzindo a contínua migração de grupos emergentes para regiões desenvolvidas.

Ao lado dos aspectos positivos da cooperação, é também oportuno sublinhar alguns riscos envolvidos no estabelecimento de uma parceria. Neste sentido, é fundamental que a participação dos diversos atores seja compreendida com clareza para evitar um excesso de expectativa, o que pode resultar em desencantos e frustrações. Em muitos casos, uma tentativa de cooperação pode ser inviabilizada pela inadequada escolha do problema, gerando uma expectativa exagerada que não tem condições de ser realizada.

Um bom exemplo desse tipo de situação pode ser ilustrado ao se comparar o sucesso dos Estados Unidos na conquista da Lua com o relativo insucesso na luta contra o câncer. Em ambos os casos foi iniciado um ambicioso programa, com o comprometimento de vultosos recursos e um prazo de dez anos para sua realização. No primeiro caso, passados menos de dez anos da promessa do Presidente Kennedy, uma nave pousou na Lua, marcando a sua conquista e sugerindo que bastava decisão política e disponibilidade de recursos para alcançar o objetivo. O mesmo não ocorreu na guerra ao câncer proposta anos mais tarde pelo Presidente Reagan.

A diferença entre as duas situações decorre do tipo de obstáculo que existia em cada caso. Na década de 60, quando se decidiu lançar na conquista do espaço, o conhecimento científico e tecnológico então existente já estava próximo daquele necessário para levar o homem à Lua. Faltavam recursos e um programa direcionado para este fim. Por outro lado, na luta contra o câncer, o que faltava (e ainda falta) era conhecimento. Neste caso, não basta alocar recursos e direcioná-los.

Em resumo, no estabelecimento da pesquisa cooperativa, é desejável que cada um dos participantes tenha consciência plena de seu papel, de forma a evitar falsas expectativas. À universidade cabe a busca do conhecimento, enquanto à indústria cabe a transformação do novo conhecimento em uma inovação. Se trabalharem em conjunto, com as responsabilidades bem definidas, as possibilidades de sucesso serão consideráveis.


Redes Cooperativas de Pesquisa - RECOPE

Conceituação
O progresso técnico-científico tem causado profundas alterações nos modos de produção, na distribuição da força de trabalho e na sua qualificação, requerendo a adoção de novas estratégias de capacitação tecnológica das empresas no sentido de torná-las mais competitivas no contexto internacional. Desde o início dos anos 70, em muitos países industrializados, foram concebidas várias formas de diminuir os custos dos estudos das pesquisas e desenvolvimentos experimentais, bem como para maximizar o aproveitamento da capacitação tecnológica disponível. Daí surgiram formas compartilhadas de desenvolvimento tecnológico denominadas pesquisas cooperativas, que se caracterizam pela formulação de projetos objetivando a geração ou a absorção de novos conhecimentos tecnológicos, a serem executados de forma coletiva. Em torno de temas de interesse comum, cooperam entre si instituições de pesquisa e empresas, que participam com recursos financeiros e/ou técnicos, custeando e/ou implementando suas partes, tendo acesso, em contrapartida, às informações geradas.

Essa forma de associação objetiva o desenvolvimento de tecnologias em estágios pré-comerciais, o que viabiliza a adesão de empresas competidoras entre si, ou a geração de competência em temas de grande potencial futuro.

A redução de custos e riscos, a acessibilidade para pequenas e médias empresas, o alto potencial de difusão e o aumento da capacidade de integração universidade/empresa/comunidade, são características que têm motivado o emprego desse instrumento.

Há varias formas de organização de pesquisas cooperativas. As mais usuais são as associações formadas como resultado da iniciativa de uma instituição líder que convida outros parceiros para participar com quotas financeiras ou na execução de partes de um projeto conjunto.

As redes ou os consórcios podem ser formalizados através de instrumentos contratuais envolvendo a instituição líder e os seus parceiros.

Objetivo
De acordo com o Documento Básico do PRODENGE, o subprograma RECOPE tem por objetivo primordial, nuclear redes flexíveis, ágeis e duradouras de instituições que se disponham a trabalhar, em conjunto, temas considerados relevantes, bem como apoiar redes já estabelecidas. Através de redes temáticas, pretende-se dar maior rentabilidade aos investimentos em recursos materiais e humanos realizados pelo País, nas últimas décadas, em setores importantes de pesquisa científica e tecnológica (engenharia, matemática, física, química, etc.). Pretende-se concentrar esforços da competência estabelecida em objetivos que interessem ao setor produtivo ou a órgãos governamentais responsáveis pela solução de problemas da área social. Redes poderão, também, ser formadas com a finalidade de gerar ou simplesmente de dominar conhecimentos, desde que a capacitação a ser desenvolvida seja julgada importante para lastrear futuros progressos tecnológicos.

Para ilustrar a estrutura típica de uma rede, apresenta-se a seguir a Rede sobre Processos Avançados de Transformação Metal/Mecânica.


Rede sobre Processos Avançados de Transformação

Metal/Mecânica

Temas Prioritários:

  • inovações na redução de minério de ferro;
  • aço, novos produtos e processos;
  • fabricação Net Shape;
  • melhoria das propriedades superficiais de metais;
  • novos processos de usinagem.

Conclusões
Foi realizado o edital público RECOPE 01/96, a partir do qual foram selecionadas instituições para a realização de projetos cooperativos nos temas prioritários. No momento, os projetos estão em fase de análise, devendo ser contratados até o final do corrente ano. Diversos mecanismos de divulgação, acompanhamento e controle das redes estão sendo discutidos para garantir o sucesso da implantação das mesmas. Espera-se que as redes ofereçam um amplo leque de serviços especializados ao setor produtivo, tais como: estudos, informações, educação continuada, consultoria, desenvolvimento experimental, transferência e difusão de tecnologia etc.

A possibilidade de que as redes ofereçam serviços também à empresas em estágio menos avançado de sofisticação está sendo incentivada para aumentar a visibilidade e o estabelecimento de redes duradouras, com forte impacto no desenvolvimento do setor produtivo.


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