Artigo do programa
de Pesquisa cooperativa

A Pesquisa Cooperativa como Solução para o Desenvolvimento Tecnológico

Antônio Sérgio Fragomeni



Introdução

Como reflexo do amadurecimento da inserção da tecnologia como fator de competitividade das empresas, tem crescido nos últimos anos a interdependência das estratégias de negócio com as estratégias de desenvolvimento tecnológico. Assim, ao lado dos desafios tecnológicos para garantir soluções voltadas para o negócio, as empresas vêm enfrentando desafios, também, quanto aos modelos de gestão de P,D&E.

O CENPES vem aperfeiçoando o seu processo de gestão de P,D&E e tem sempre considerado o leque de oportunidades que se apresentam, traçando estratégias e ações voltadas para o reforço do papel da tecnologia PETROBRAS como:

  • fator de autonomia e competitividade empresarial;
  • ferramenta de qualidade e produtividade;
  • contrapartida nas negociações para o estabelecimento de parcerias.

Para a manutenção do retorno financeiro das atividades de P,D&E, a PETROBRAS tem como principais suportes a adequação das carteiras de projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico aos seus objetivos e sua política de cooperação tecnológica, tendo em vista as vantagens proporcionadas pela agregação de competências acadêmicas e industriais.



Integração das estratégias tecnológicas
às de negócio

A fim de garantir a tecnologia como fator de diferenciação, a PETROBRAS tem se utilizado de mecanismos de alinhamento das estratégias tecnológicas com as suas estratégias de negócio. Os Projetos Estratégicos PROCAP 2000 - Programa de Inovação Tecnológica em Águas Profundas e Ultra-profundas, PRAVAP - Programa Estratégico de Recuperação Avançada de Petróleo e PROTER - Programa de Desenvolvimento de Tecnologias Estratégicas de Refino são exemplos de demandas tecnológicas incorporadas ao Plano Estratégico da PETROBRAS.

Na definição das estratégias tecnológicas são ouvidas as áreas operacionais da Companhia, de modo a garantir a adequação dos desenvolvimentos tecnológicos às reais necessidades do negócio, além de contribuir para a implantação das tecnologias geradas.



Gestão de tecnologia na PETROBRAS

A PETROBRAS adota a gestão compartilhada de P,D&E, que incorpora as visões dos clientes e garante a adequação dos desenvolvimentos tecnológicos às necessidades da Companhia.

O portifólio de projetos de desenvolvimento de tecnologia é selecionado segundo a coerência com as estratégias de negócio da Companhia e a atratividade dos projetos. Com isso, o perfil das atividades do CENPES privilegia os investimentos de P&D nas tecnologias medulares ou de alto impacto competitivo, restringindo-se a pesquisa básica e os desenvolvimentos de maturação, a mais longo prazo, às instituições com vocação para o desenvolvimento de tecnologias embrionárias.

Este modelo tem exigido, portanto, um consistente movimento de articulação com entidades de P&D, indústrias e fornecedores no país e no exterior, para o desenvolvimento de projetos sob a forma de cooperação.



Formas cooperativas de pesquisa

Além do aspecto de compartilhar esforços no desenvolvimento de tecnologias embrionárias, a consciência sobre a globalização do conhecimento e a necessidade de redução dos custos e riscos da atividade de P,D&E, tem levado a PETROBRAS a ampliar e consolidar sua política de cooperação tecnológica com universidades, institutos de pesquisas e empresas do Brasil e do exterior.

O relacionamento do CENPES com instituições de pesquisa e com o meio acadêmico nacional e internacional envolve investimentos de cerca de US$ 10 milhões anuais, o que corresponde a 5% do total aplicado anualmente pela Companhia no segmento de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

O CENPES tem adotado diversas formas de cooperação tecnológica, como articulação com a comunidade de C&T nacional e internacional e acordos de intercâmbio tecnológico com Companhias operadoras e fornecedores, conforme descrito a seguir. Estes tipos de cooperação foram amplamente utilizados no desenvolvimento do bem sucedido Programa de Capacitação Tecnológica em Sistemas de Exploração para Águas Profundas (PROCAP).



Articulação com a comunidade tecnológica nacional

Neste tipo de parceria, enfatiza-se o fortalecimento da capacitação da comunidade de pesquisa nas disciplinas relacionadas à indústria do petróleo, seja na forma de desenvolvimento de projetos cooperativos, na organização de cursos de mestrado e doutorado direcionados para os interesses da PETROBRAS ou em programas de estágio de alunos e professores das universidades brasileiras no Centro de Pesquisas.

Além das parcerias com instituições nacionais de desenvolvimento tecnológico, o CENPES mantem convênios e acordos de cooperação com entidades de fomento. Os investimentos vêm aumentando ao longo dos últimos anos nestas parcerias, para o desenvolvimento conjunto de projetos de pesquisa ou prestação de serviços em áreas de interesse para a empresa.

Os investimentos em parcerias com a comunidade nacional de C&T somaram US$ 21 milhões nos últimos 4 anos. Na figura 1 tem-se a evolução dos recursos aplicados no período 92-95 e no quadro 1 a distribuição dos recursos por universidade em 1995. Até Jun-96 foram despendidos US$ 6,8 milhões em projetos de P&D desenvolvidos em parceria com 26 instituições e universidades da Comunidade de C&T Nacional.

Fig. 1 - Evolução dos investimentos na comunidade nacional de C&T

Evolução dos investimentos na comunidade nacional de C&T

Quadro 1 - Investimento nas instituições de P&D nacionais em 1995

Instituição Investimento 95 (R$ Milhões)
PUC/RJ 3,3
UFRJ 1,7
UNICAMP 1,1
UFSC 0,4
UFOP 0,4
Outras 1,3
Total 8,2

No quadro 2 apresentam-se alguns exemplos de linhas de pesquisa desenvolvidas pelas universidades nacionais.

Quadro 2 - Linhas de pesquisa

Universidade Exemplos de linhas de pesquisa
PUC/RJ Inteligência Artificial/ PIG / Exploração em águas profundas
UFRJ Cálculo Estrutural/ Robótica/ Catalisadores/ Corrosão/ Biotecnologia
UNICAMP Modelagem de reservatórios/ Biotecnologia/ Robótica/ Estabilidade de poços
UFSC Remediação de contaminação de solos
UFOP Modelagem geológica/ geoquímica ambiental
USP Sistemas de ancoragem/ Simulação de vapor/ Mecânica das rochas
UFSCAR Materiais compósitos
UFRGS Sedimentologia/ Estratigrafia/ Petrografia orgânica

Um exemplo bem sucedido de projeto desenvolvido em parceria com uma universidade nacional foi o desenvolvido para um sistema de separação, realizado com a UNICAMP. O protótipo foi testado junto com um outro protótipo desenvolvido no projeto multicliente VASPS (Vertical Annular Separation Pumping System), onde a AGIP era a líder e participavam PETROBRAS, MOBIL UK e BP. Ambas as concepções para o sistema de separação se mostraram eficientes, estando previsto um novo teste em campo marítimo.

Recentemente, foi implantado o primeiro projeto multicliente nacional, liderado pela PUC/RJ e com a participação de 8 (oito) Companhias do setor petróleo - PETROBRAS, NORSK HYDRO, STATOIL, SAGA, PIPETRONICS, ANCAP, HALLIBURTON e EXXON. O projeto se propõe a desenvolver um sistema de Simulação do comportamento de pigs e está orçado em US$ 198 mil, com a duração de 18 meses. Dentre as vantagens deste projeto ser desenvolvido no Brasil está o reconhecimento da capacitação da comunidade de P&D nacional no mercado mundial e o domínio total sobre as etapas do desenvolvimento do projeto pela PETROBRAS, garantindo a consolidação da tecnologia no nível operacional.

No âmbito nacional, o CENPES tem buscado parcerias, também, com instituições governamentais de fomento, em busca de apoio ao desenvolvimento tecnológico, por meio de incentivos fiscais e financiamento à redes de cooperação. Como exemplos tem-se:

  • RECOPE - Rede Cooperativa de Pesquisa, financiada pelo MCT/FINEP. A PETROBRAS está participando em 3 redes de temas prioritários: automação industrial, processos avançados de transformação metal/mecânica e aplicações da informática à engenharia. Além de estar propondo 3 outras redes de temas específicos: engenharia submarina, catálise e reciclagem de resíduos. Já estão em fase de estruturação da rede os 3 temas prioritários e o de engenharia submarina. Estes temas serão desdobrados em 4 redes e cada uma delas deve receber um orçamento de R$ 1 milhão.
  • Projeto ÔMEGA, financiado pelo MCT/FINEP para apoiar o desenvolvimento de projetos de pesquisa cooperativa, liderados por uma universidade e com a participação de mais uma instituição de ensino e pelo menos mais duas indústrias. O CENPES está participando do projeto "Aspersão Térmica", numa cooperação entre o CENPES, a PUC, a USIMINAS e a Cascadura Industrial e Mercantil Ltda.
  • Projeto BRIO, parceria entre a PETROBRAS, o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a FIRJAN. Compõe-se de 10 grupos de trabalho com o objetivo de aumentar a sinergia entre os atores em prol do estado, abrangendo questões de meio ambiente, desenvolvimento tecnológico e incremento do uso do gás natural, entre outros. O CENPES está coordenando o grupo "Forum de Tecnologia", onde foi proposto um curso de formação de gestores da articulação universidade-empresa junto à classe empresarial.



Articulação com a comunidade tecnológica internacional

Os grandes desafios da indústria do petróleo levou a PETROBRAS a buscar, também, o fortalecimento da sua base de conhecimentos em instituições de C&T internacionais, como universidades, centros de P&D e nas próprias indústrias do setor. Este tipo de cooperação, comum internacionalmente, é operacionalizada por meio de projetos multiclientes, coordenados por uma das instituições, normalmente uma universidade, e estendida a participação para outras instituições interessadas, mediante rateio dos custos pré-estabelecidos no início dos projetos.

Os projetos multiclientes têm sido uma das formas de aquisição de tecnologia em crescimento na empresa, como mostra a figura 2. A meta estabelecida para 1996, conforme revisão de metas do Plano Plurianual de Atividades para o período 1995 a 1999, é investir cerca de US$ 2,5 milhões nesses projetos anualmente. Em 1996, até Junho, foram despendidos US$ 1,2 milhões. A carteira de projetos é composta por 71 projetos, destacando-se no quadro 3 alguns exemplos de linhas de pesquisa em desenvolvimento.

Fig. 2 - Investimento na comunidade de P&D internacional

Investimento na comunidade de P&D internacional

Quadro 3 - Exemplos de linhas de pesquisa desenvolvidas em instituições externas

Universidade Exemplos de linhas de pesquisa
Royal Holloway and Bedford New College (UK) Dinâmica de falhas
Imperial College England (UK) Fluxo multifásico
Heriot-Watt (UK) Modelagem de reservatórios
Stanford (USA) Geoquímica orgânica
Tomografia sísmica
Tulsa (USA) Fluxo de fluidos
Separação Multifásica
Manchester (UK) Sistemas de separação/ Corrosão microbiana
Colorado School of Mines (USA) Inibição de hidratos

O objetivo principal deste tipo de parceria é acompanhar o estado-da-arte das tecnologias emergentes, ainda em estágio pré-competitivo, e identificar potenciais parceiros para acordos de cooperação no desenvolvimento conjunto de sistemas ou processos operacionais.



Acordos de intercâmbio tecnológico

A PETROBRAS, através do seu centro de pesquisa, tem firmado acordos de intercâmbio tecnológico com Companhias da indústria do petróleo, como Shell, BP-Statoil, Agip e IFP, entre outras, visando a troca de experiências e inserção da tecnologia como contrapartida em negócios conjuntos. Várias tecnologias estão sendo objeto de acordos, como mostra o quadro 4.

Quadro 4 - Exemplos de tecnologias, objeto de acordos de intercâmbio tecnológico

Tecnologia Acordo
Perfuração em águas profundas Petrobras-BP/Statoil
Bombeamento multifásico Petrobras-Shell Petrobras-BP/Statoil
Completação submarina Petrobras-Shell
Sistema de produção flutuante Petrobras-Shell Petrobras-BP/Statoil
Plataforma de pernas atirantadas Petrobras-Shell
Hidratos e parafinas Petrobras-Shell Petrobras-BP/Statoil
Catalisadores Petrobras-IFP



Acordos de parceria

A necessidade de garantir o escoamento do petróleo, produzido em águas profundas, tem demandado a adaptação dos sistemas de produção convencionais. Para isso a PETROBRAS, por meio do CENPES, tem estabelecido vários acordos de parceira tecnológica com fabricantes de equipamentos. No quadro 5 listam-se alguns exemplos deste tipo de parceria.

Quadro 5: Exemplos de equipamentos desenvolvidos em parceria

Equipamento Fabricante
Bombeio centrífugo submerso – BCSS Pirelli, Tronic, Reda/Lasalle e Cooper/Cameron
Bombeamento multifásico Westinghouse/ Leistritz
Árvore de natal molhada horizontal Cameron
Medidor multifásico Fluenta

A tecnologia de Bombeio Centrífugo Submerso para poços submarinos (BCSS) é produto de um acordo de intercâmbio entre a Petrobras e 6 fornecedores, como Pirelli (cabos elétricos), Tronic (conectores elétricos), Reda/Lasalle (bomba, motor e protetor) e Cooper-Cameron (adaptação da árvore de natal molhada para receber os conectores elétricos), onde a Petrobras detinha a tecnologia de árvore de natal molhada.

O sistema, que tem por objetivo substituir o método de elevação artificial de gás lift, está instalado no poço 4-RJS-221 (Campo de Carapeba) desde outubro de 1994 sem interrupção para manutenção. Como resultado, o projeto posicionou a Petrobras como líder mundial no desenvolvimento desta tecnologia e, em termos financeiros, apresenta, até o momento, um índice de 2,3 para a relação benefício/custo. Está prevista uma nova instalação no poço 4-RJS-477A (Albacora Leste) a uma profundidade de 1109 m de lâmina d'água.

A fim de adaptar o BCSS às condições de produção em águas profundas, tanto em termos de durabilidade como de redução de custos, firmou-se uma parceria tecnológica com a Cameron para o desenvolvimento de um protótipo de árvore de natal molhada horizontal - ANMH. Neste conceito de árvore de natal, as linhas de produção são acopladas sobre a ANMH, permitindo, assim, a troca do BCSS sem a necessidade de retirar a árvore de natal e reduzindo o tempo de intervenção.



Acordos cooperativos/participativos

No âmbito do Mercosul, por meio do Comitê de Dirigentes de Centros de Investigación y Desarollo Tecnológico - CODICID, estão sendo definidas formas efetivas de cooperação tecnológica entre as empresas estatais latino-americanas do setor petróleo, como CENPES/PETROBRAS, IMP/PEMEX, ICP/ECOPETROL e INTEVEP/PDVSA. Foram formalizados oito temas de interesse comum, que estão sendo discutidos em seminários e desdobrados em projetos. A forma de operacionalização dos projetos pode ser cooperativa, um dos centros de P&D coordena e os outros apoiam com recursos financeiros e humanos ou participativa, na qual um dos centros lidera e os outros trabalham em fases ou etapas do desenvolvimento. Os temas contemplam tanto o segmento upstream como o downstream da indústria do petróleo, como:

  • Danos à formação e depósito de sólidos;
  • Estabilidade de poços;
  • Biotecnologia aplicada à indústria do petróleo;
  • Elevação artificial;
  • Homologação de técnicas analíticas e avaliação de catalisadores, cargas e produtos;
  • Processo FCC e reformulação de combustíveis;
  • Conversão de cargas pesadas: hidroconversão, coqueamento e outras
  • Catálise computacional.



Resultados

A soma das competências do CENPES com as das outras instituições de P&D tem proporcionado o domínio de tecnologias fundamentais para o enfrentamento dos desafios impostos à Companhia, tanto na exploração de reservas localizadas em águas profundas como no processamento dos petróleos nacionais.

O retorno para a PETROBRAS dos investimentos em P,D&E é acompanhado por um dos indicadores do Sistema de Indicadores de Desempenho do CENPES, que considera apenas os benefícios dos projetos de P,D&E - não incluindo os benefícios dos serviços técnicos, dos projetos de meio ambiente, de desenvolvimento de metodologias e de capacitação. Em 1995, o indicador, definido como a razão entre os benefícios dos projetos concluídos nos últimos cinco anos em relação aos respectivos custos do CENPES, foi de 3,8. A figura 3 mostra a evolução deste indicador nos últimos 4 anos.

Fig. 3 - Evolução do indicador benefício/custo do CENPES

Evolução do indicador benefício/custo do CENPES

O modelo de pesquisa cooperativa adotado pelo Centro de Pesquisas da PETROBRAS tem apresentado excelentes resultados do ponto de vista empresarial, pois além de propiciar tecnologia de vanguarda para o próprio uso da Companhia, permite a realização de pesquisas a custos reduzidos e, também, o desenvolvimento de um volume adequado de pesquisa científica de longo prazo, compartilhada com universidades e outras instituições científicas nacionais e internacionais.


Versão deste artigo em
arquivo .doc para Word.

   Versão deste artigo em
arquivo .zip compactado.