Artigo do programa
Educação continuada e atualização profissional

Educação Continuada e Reciclagem de Professores e Engenheiros

Guilherme Ary Plonski

Quem precisa de educação continuada?

Para fins desta exposição, restringe-se o conceito de educação continuada a atividades de ensino-aprendizagem formais, oferecidas para pessoas portadoras de título de conclusão de um curso superior, com exceção de programas de mestrado e de doutorado.

Observe-se que essas atividades podem ser oferecidas tanto por instituições de ensino superior como por outros tipos de entidades, tais como fornecedores de sistemas e empresas de consultoria. A participação de entidades não-universitárias, como será mostrado adiante, ocupa um espaço crescente no ambiente da educação continuada.

Existe um conceito mais lato de educação continuada, em que não se estabelece o requisito da prévia conclusão de curso superior. Até mesmo universidades vêm oferecendo crescentemente cursos em que esse requisito não é necessário. O catálogo mais impressionante nesse sentido é o da New School for Social Research, de Nova Iorque, instituição acadêmica de excelência. Esse conceito mais amplo de educação continuada será retomado adiante, quando se fizer menção ao movimento pela aprendizagem permanente.

Cabe ressaltar que essa restrição não se deve a que o expositor porventura seja adepto da cultura do "canudo de papel". De fato, não crê ele haver equivalência entre obter um título de conclusão de curso superior e ser competente profissionalmente, por motivos diversos:

Por um lado, existem cursos superiores de baixa qualidade, cujos(as) egressos(as), infelizmente, não tiveram acesso ao que lhes seria devido. Espera-se que os mecanismos de controle que vêm sendo instituídos na esfera governamental, alguns dos quais são polêmicos, atenuem essa distorção.

Por outro lado, verifica-se a existência de número significativo de profissionais e empreendedores(as) bem sucedidos(as) que, ou nunca cursaram o nível superior, ou não chegaram a concluí-lo. Isso se aplica, inclusive, a pessoas capazes de criar empresas intensivas em conhecimento avançado, sendo o caso de Bill Gates o mais notório (o criador e dirigente principal da Microsoft abandonou a faculdade sem terminar o curso).

Todavia, no contexto do tema desta exposição, que focaliza o ambiente profissional da engenharia, a obtenção de título superior em instituição reconhecida é mandatória. Cabe perguntar, então, por que realizar estudos posteriores, uma vez que a conclusão do curso de engenharia dá condição legal de exercer a profissão de forma permanente?

Há pelo menos nove motivos que justificam a educação continuada da perspectiva do(a) engenheiro(a). Serão eles enunciados de forma breve, a seguir.

O motivo tradicional é a necessidade de compensar a obsolescência do conhecimento adquirido quando da realização do curso superior (cuja meia vida, conforme costumava lembrar o saudoso Prof. Décio de Zagottis, é da ordem de cinco anos). O arcaísmo do conhecimento se manifesta em duas dimensões. Longitudinalmente, ele decorre do surgimento de novas informações e técnicas relevantes para o exercício profissional competente. Um dos exemplos mais típicos em nosso campo é a automação do processo de engenharia, que se manifesta já na fase do projeto pela utilização crescente das ferramentas conhecidas pela sigla em inglês CAD (Computer-Aided Design). Mas igualmente importante é a obsolescência em termos da latitude do conhecimento. Por exemplo, a partir de meados desta década não se concebe que um(a) engenheiro(a) ignore os conceitos e técnicas contemporâneas da qualidade, devendo ser capaz de integrá-los aos conhecimentos específicos de sua especialidade.

Um outro motivo bastante comum para participar de um programa de educação continuada é a necessidade de adquirir ou aprimorar habilidades inter-subjetivas necessárias ao bom desempenho profissional. Entre elas, destaca-se a de comunicar idéias em forma escrita e oral de modo adequado para subsidiar decisões. A ausência dessa habilidade leva a situações tais como a manifesta na recente queixa de um profissional, tecnicamente competente, de que o comitê decisor ao qual ele apresentava a sua idéia "nem me deixou acabar de expor a minha proposta". Outra habilidade muito valorizada pelas organizações, atualmente, é a de trabalho em equipes multidisciplinares. Ela é imprescindível, por exemplo, para o desenvolvimento integrado de novos produtos. Observe-se que o aperfeiçoamento dessas habilidades não pode ser feito mediante aprendizagem individual. Requer um ambiente de grupo e um(a) facilitador(a) da aprendizagem que seja competente em gerir a sua dinâmica, isto é, configura uma atividade formal de educação continuada.

Uma terceira razão para se engajar em programas de educação continuada tem a ver com o desejo natural de ascender na carreira. Essa ascensão, para o(a) engenheiro(a), pode ocorrer na trajetória profissional com ênfase técnica, ou numa linha que combine aspectos técnicos e de gestão. Esta última tem sido o caminho freqüentemente almejado pelos(as) engenheiros(as) após alguns anos de carreira estritamente técnica. Em decorrência, programas de educação continuada tais como o tradicional Curso de Extensão em Administração Industrial, oferecido há quase vinte anos pela Fundação Vanzolini, em convênio com a Poli/USP, têm uma demanda tão superior à oferta que, mesmo sem anúncios na imprensa, parcela expressiva das disciplinas esgota sua lotação antes de se abrirem as matrículas para participantes avulsos.

Uma variante do motivo exposto no tópico anterior é o processo de terceirização, adotado por muitas empresas. Ainda que a competência técnica requerida para vender o serviço à empresa originária seja a mesma, passam a ser necessários outros conhecimentos, habilidades e atitudes, de natureza administrativa e empreendedora. Um exemplo recente é o de um conjunto de profissionais de engenharia que resolveu estabelecer uma cooperativa de trabalho para continuar prestando serviços técnicos especializados a uma sociedade de economia mista. Nesse novo ambiente, os(as) cooperados(as) necessitam conhecer aspectos de legislação de cooperativas, de administração financeira, de relacionamento e outros.

A quinta causa propulsora para a educação continuada tem a ver com a chamada "segunda carreira". A perda da condição de assalariado - por demissão sem possibilidade de reinserção adequada no mercado de trabalho, ou por aposentadoria ainda em pleno vigor - faz com que o(a) profissional busque uma nova fonte de renda. Por vezes isso leva a um abandono completo da atividade original. Assim, ficou famoso "o engenheiro que virou suco", caso exposto na imprensa geral no início da década dos oitenta, para mostrar o impacto da recessão econômica que então afetava o Brasil, contrastando com o crescimento intenso do produto nacional ocorrido nos anos setenta. Mas freqüentemente busca-se uma segunda carreira que permita capitalizar ao menos parte da experiência de engenharia adquirida na primeira, requerendo-se, portanto, cursos de complementação.

Certas atividades, em que há uma densidade elevada de engenheiros(as), requerem certificação para o seu exercício e, por conseguinte, a participação em cursos de educação continuada específicos, oferecidos por entidades credenciadas. Os exemplos mais difundidos em nosso meio são o de auditor(a) de qualidade e o de engenheiro(a) de segurança. Mas há outras especialidades que estão considerando instituir uma certificação, como forma de diferenciação no mercado. É o caso do gerenciamento de projetos, em que se tem no exterior o modelo do "gerente de projeto certificado" pelo Project Management Institute.

A sétima causa de demanda por educação continuada prende-se à trajetória pessoal e profissional das engenheiras. Dado o modelo de relações sociais de gênero vigente na sociedade brasileira, a responsabilidade pelo lar é predominantemente da mulher. Assim, é comum engenheiras largarem a sua atividade profissional por mais de década após o nascimento da primeira criança. Quando do seu retorno, após terem-se liberado de parcela substancial da ocupação com os afazeres domésticos, é quase certo que necessitarão de um programa de educação continuada para a sua reinserção profissional.

O oitavo motivo, específico dos(as) professores(as) de engenharia, tem a ver com:


  • a expansão desejável dos cursos de educação continuada;
  • a mudança da tecnologia disponível para ensino-aprendizagem. Algumas universidades já estão oferecendo cursos voltados à capacitação pedagógica dos(as) docentes dos cursos de engenharia.

Como última desta série, será exposta uma razão geral para a participação em atividades de educação continuada. Trata-se da busca da maior empregabilidade (este conceito será objeto da próxima teleconferência do Engenheiro 2001). Isso tem a ver, além de aspectos já apontados nos tópicos anteriores, com:
  • o estabelecimento e cultivo de redes de relacionamentos com outros(as) profissionais que freqüentam os mesmos cursos, úteis a médio e longo prazos;
  • a coleta de subsídios para o planejamento estratégico da trajetória profissional;
  • os temas declinantes e os emergentes;
  • a caracterização das questões-chave (issues) da área;
  • a eventual identificação de oportunidades concretas, quer para mudanças a curto prazo na trajetória individual, como para o estabelecimento de parcerias profissionais.


Como se valoriza a educação continuada?

É importante contextualizar a educação continuada, expondo a sua relevância segundo outras óticas, complementando os méritos do ponto de vista individual.

Da perspectiva empresarial, a educação continuada deve ser vista mais além do que uma forma de treinar os indivíduos que a integram. A educação continuada é a espinha dorsal dos processos coletivos de readequação estratégica da empresa, capacitando-a a lidar com as novas condições do ambiente em que opera. Dois entre muitos exemplos são mencionados a seguir, sendo um no exterior e outro brasileiro (ambos desta década). Quando a Boeing percebeu que necessitava adotar o paradigma da engenharia simultânea no desenvolvimento de novos aviões, a fim de recuperar a competitividade que estava perdendo para a Airbus, estabeleceu uma parceria com a Washington State University para capacitar milhares de profissionais a operar segundo esse paradigma. O porte do desafio exigiu que aquela universidade adentrasse o então desconhecido para ela campo da educação continuada a distância. Quando a Método identificou a necessidade de inovação tecnológica e gerencial para se diferenciar no mercado da construção civil, estabeleceu convênios internacionais para aprendizagem tecnológica e induziu a Fundação Vanzolini, em convênio com a Poli/USP, a desenvolver um programa de educação continuada em engenharia de produção focalizado para esse ambiente. A Método em pouco tempo chegou à condição de empresa do ano pelo critério das "melhores e maiores" da revista Exame. O programa desenvolvido para a Método teve tanto sucesso que foi depois estendido a sindicatos de empresas do setor de construção e de outros segmentos do ramo imobiliário, nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.

Da perspectiva do ofertante acadêmico, a educação continuada apresenta pelo menos cinco méritos:


  • Permite estender o conhecimento disponível, usualmente resultado de pesquisa, a segmentos não abrangidos nos cursos tradicionais, dando maior relevância à contribuição multifacetada da universidade à sociedade;
  • Permite testar temas e metodologias que, mais adiante, poderão ser incorporados aos cursos de graduação;
  • Estabelece uma base de relacionamento inter-institucional e inter-pessoal entre profissionais que atuam no mercado e na academia, o que facilita a realização de outras atividades cooperativas, inclusive a abertura de espaços para trabalhos de formatura e atividades de pesquisa;
  • Propicia um nível maior de utilização do patrimônio físico da universidade, por exemplo, no período noturno, em que não há cursos de engenharia (ou são oferecidos em menor intensidade);
  • Permite o auferimento de receita adicional, utilizável para os fins específicos de remuneração adicional aos(às) docentes, complementação e atualização das instalações e equipamentos e outras finalidades.

Da perspectiva política, a educação continuada deve ser entendida como um elemento útil para que certos objetivos sejam alcançados pelos atores. É ilustrativo o exemplo de países da União Européia nas quais a questão do emprego é crítica, atingindo especialmente os(as) profissionais recém-formados(as). Neles, a educação continuada é uma política pública que inclui a manutenção de jovens no ambiente acadêmico mais algum tempo após ter completado o curso de graduação, de maneira a postergar o choque com a realidade do mercado de trabalho marcado pelo desemprego (que se supõe será atenuado). Com isso busca-se, naturalmente, amenizar possíveis tensões provenientes das reivindicações de um segmento combativo da sociedade.

Da perspectiva sócio-econômica, a educação continuada constitui uma forma de valorizar o patrimônio nacional e regional mais relevante na sociedade do conhecimento em que vivemos. Esse patrimônio, que infelizmente não tem registro na contabilidade social, é constituído pelas pessoas, em especial as que são necessárias para que o sistema nacional de inovação tenha um bom desempenho. Cabe observar a relevância da engenharia nos processos de inovação, em termos de produtos, processos, serviços e organização. Uma dimensão importante a ser observada sob essa perspectiva é a utilização da educação continuada como forma de reduzir as disparidades inter-regionais e inter-empresariais no Brasil (por exemplo, entre empresas médias e grandes e as de pequeno porte). Cabe mencionar o papel potencial da Rede Brasileira de Engenharia nesse sentido.


Como viabilizar programas de educação continuada?

É prática internacional que a realização de programas de educação continuada seja remunerada para a entidade que os oferece. Isso se aplica não apenas aos casos em que o ofertante seja uma empresa privada, mas também a entidades sem finalidade lucrativa, tais como fundações e instituições públicas de ensino superior. Neste último caso, os recursos provenientes do orçamento governamental destinam-se primordialmente a cobrir os custos dos cursos de graduação e de pós-graduação.

Mesmo os custos da realização de pesquisa fundamental requerem aportes externos de agências tais como as fundações estaduais de amparo à pesquisa, o CNPq ou a FINEP. Dessa maneira, a realização de atividades de educação continuada deve necessariamente ser auto-financiada. Há alguma discussão sobre a forma de custeá-las, se pelo custo marginal ou pelo custo total (que implica, por exemplo, em pagar uma taxa pelo uso das instalações acadêmicas). A tendência é a de custear todos os insumos necessários. Por outro lado, há que se lembrar que preço é diferente de custo, ou seja, deve-se estabelecer um preço que seja adequado ao poder de compra dos(as) demandantes e ao valor que o curso agregará aos(às) participantes e seus patrocinadores.

A modalidade de pagamento dos cursos pode-se situar em qualquer ponto de um espectro que tem, em suas extremidades, o pagamento total pelo(a) participante e a cobertura total por um agente externo, como, por exemplo, a empresa na qual os(as) engenheiros(as) atuam. A tendência atual indica um compartilhamento entre participantes e patrocinadores, com aqueles cobrindo uma parcela pequena das taxas de inscrição.

É importante explicitar a existência, para quem participa de programas de educação continuada e seus patrocinadores, de custos mais além dos valores monetários pagos aos ofertantes. Incluem eles os seguintes:


  • custo de oportunidade do tempo dedicado pelos(as) participantes - que se tem tornado mais elevado, em função do enxugamento dos quadros das empresas);
  • custos de deslocamento;
  • custos de hospedagem quando fora da sede;
  • custos de material especialmente adquirido;
  • custos de gerenciamento da educação continuada de seus(suas) colaboradores(as) pelas empresas patrocinadoras, geralmente englobados na rubrica de treinamento e desenvolvimento da área de recursos humanos.

Este último custo pode ser significativo, levando algumas empresas a terceirizar essa atividade - ou melhor, a "quarteirizar", isto é, a contratar externamente a gestão dos terceiros que oferecem os programas de educação continuada. Em verdade, essa iniciativa parece estar mais ligada à busca de eficácia do investimento em capacitação do quadro profissional técnico e executivo, em que é essencial ter sensibilidade para a estratégia geral e tecnológica da empresa. Já não é mais aceitável a empresa pagar um curso, preferencialmente fora da sede, para "premiar" um(a) colaborador(a); pelo contrário, é essencial projetar e avaliar institucionalmente o composto de educação continuada realizado pelos(as) seus(suas) colaboradores(as) de forma criteriosa. Nesse sentido, uma área de pesquisa interessante é o estabelecimento de indicadores de educação continuada que sejam relevantes sob as diversas óticas expostas.

Sob a perspectiva mais ampla, o custo global da educação continuada acima detalhado (em suas duas categorias básicas de valores monetários e tempo) deve ser compartilhado, em proporções ajustadas caso a caso, pelos três atores: os profissionais, as empresas e o governo. A forma de rateio tem a ver com a apropriação dos resultados e a possibilidade de cada um dos atores. O delineamento e institucionalização desses modelos de parceria já vem sendo objeto de atenção de entidades representativas dos(as) profissionais. Assim, por iniciativa do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo foi promulgada a Lei Estadual 8092/92, que institui "o Programa Permanente de Desenvolvimento Profissional e Reciclagem Tecnológica no âmbito da educação continuada para engenheiros (...) dos Quadros da Administração Direta e Indireta do Estado". Por seu intermédio ficou "instituído um mínimo de seis dias úteis por ano a serem utilizados em atividades de reciclagem tecnológica, sem qualquer prejuízo na remuneração dos profissionais". Ajustes de mesma natureza foram feitos pelo Sindicato com entidades representativas do setor privado no Estado de São Paulo. Verifica-se aí a contribuição da empresa em termos de tempo, não necessariamente no custeio.

A educação continuada é estimulada pelos governos de alguns países, tais como o Chile, Espanha e França, mediante um fundo especialmente voltado ao financiamento de custos de capacitação, ao menos de forma parcial ou permitindo o incentivo fiscal a essas atividades. No Brasil tivemos a Lei 6297/75, que permitia incentivar, mediante dedução no imposto sobre a renda das pessoas jurídicas, as iniciativas de treinamento e desenvolvimento. A Lei 8248/91 permite incentivar fiscalmente programas de qualidade em empresas do setor de informática.

Que características devem ter as estratégias de ensino-aprendizagem na educação continuada?

Este tem sido um dos pontos nevrálgicos no ambiente da educação continuada, com muitos casos de sucesso mas também com muitos problemas.

Da perspectiva dos ofertantes acadêmicos, não se questiona o conhecimento dos temas tratados nem a seriedade dos(as) docentes. Os problemas surgidos têm a ver:

  • com a relevância percebida do conteúdo em função dos horizontes de tempo dos(as) participantes;
  • com a pedagogia utilizada, quando se praticam as formas usualmente adotadas nos cursos de graduação ou de pós-graduação em sentido restrito.

Recomendam-se estratégias de ensino-aprendizagem centradas o quanto possível nas vivências profissionais do(as) participantes, atuando o(a) instrutor(a) mais como facilitador(a). Nas áreas mais próximas à gestão devem ser privilegiadas técnicas baseadas na abordagem da experiência estruturada. Em síntese, estabelece ela seis etapas de aprendizagem:

  • Leitura de um texto introdutório denso mas sucinto, que contextualiza a experiência e fornece elementos conceituais básicos a respeito do tema focalizado;
  • Participação, em pequenos grupos, de uma vivência, que é tipicamente um jogo interativo;
  • Compartilhamento das percepções a respeito da vivência havida "aqui e agora", de uma forma organizada;
  • Generalização, pelo(a) facilitador(a) da experiência vivida, articulando as percepções manifestadas na etapa anterior aos conceitos introduzidos no texto, e buscando levar esses elementos do "laboratório" para a realidade percebida das organizações de onde os(as) participantes provêm;
  • Leitura de um novo texto, também denso ainda que sucinto, complementado os conceitos e oferecendo oportunidades e fontes para aprendizagem adicional;
  • Aplicação em casos concretos e sua avaliação.

A última etapa acontece com o retorno dos participantes às suas organizações. É altamente conveniente estruturar também esta etapa, a fim de assegurar o fechamento do ciclo da aprendizagem. O programa de educação continuada em engenharia de produção desenvolvido pela Fundação Vanzolini e a Método primou por esse cuidado. Assim, os(as) participantes tiveram tempo para aplicar os conhecimentos e habilidades na solução de questões reais da empresa ou em uma de suas obras. Os projetos foram elaborados, analisados e expostos publicamente, para os(as) docentes e para os executivos da empresa, com destaque dos que se distinguiram. Meios de comunicação internos e externos foram também utilizados para divulgar esses resultados e valorizar ainda mais o esforço de aprendizagem.

A disseminação da tecnologia para educação continuada a distância requererá ajustes importantes nas estratégias de ensino-aprendizagem. Essencialmente, deve-se evitar um maniqueísmo do tipo "ou presencial ou a distância". Elementos maiores dessa discussão foram objeto de teleconferência anterior do Engenheiro 2001.

A existência de uma variação muito grande entre a qualidade dos cursos de educação continuada, em especial os oferecidos fora do ambiente acadêmico, tem levado à consideração de um procedimento de certificação.


Como a educação continuada é afetada pela dimensão internacional?

A globalização aponta para dois fenômenos: a expansão de programas de educação continuada além-fronteiras como empreendimento comercial, e a importância de esforços cooperativos, tanto no nível regional (por exemplo, no Mercosul) como no internacional mais amplo.

A expansão para o exterior de programas de educação continuada tem sido buscada por entidades em busca de novos mercados. Várias delas são de cunho acadêmico, oferecendo cursos diretamente ou mediante associação, franquia ou outra forma de articulação com congêneres locais. Os diplomas e certificados de conclusão mencionam a instituição estrangeira, cuja reputação é valorizada pelos(as) participantes e patrocinadores. A acessibilidade a tecnologias que ensejam a educação continuada a distância sugerem que essa modalidade de internacionalização de programas aumente consideravelmente. Há, entre outras, duas questões a considerar acerca dessa tendência. A primeira é a questão do idioma, que favorece certos aglomerados. Todavia, a diferença de idioma pode ser contornada mediante tradução simultânea. Mais delicada é a questão cultural, em que "pacotes" importados podem ser pouco sensíveis a características locais. Isso se aplica não apenas a temas de natureza humanística, tais como os associados a cursos de gestão, valendo também para temas estritamente técnicos. De fato, as normas podem diferir entre países, o custo e disponibilidade dos insumos variam, e o processo de engenheirar segue procedimentos próprios.

O outro impacto, este sempre positivo, é manifestado pelo fenômeno da cooperação internacional. Trata-se de formas de articulação em que os partícipes têm um grau ao menos razoável de equiparação, contrastando com a assimetria inerente ao mecanismo de exportação/importação de cursos descritos. Temas de interesse comum a vários países ou regiões, como, por exemplo, o do meio ambiente, são identificados e programas de educação continuada são desenvolvidos em conjunto, para utilização ampla.

Existem distintos foros que promovem essa cooperação internacional, entre os quais se mencionam os seguintes:


  • International Association for Continuing Engineering Education - IACEE, com sede em Helsinki (Finlândia). O próximo evento internacional organizado por essa entidade, que é o 7th WCCEE, acontecerá em Turim (Itália), no período de 10 a 14.5.98, sob o tema "Revolução do Conhecimento: o Impacto da Tecnologia na Aprendizagem". O congresso anterior ocorreu no Brasil, organizado em São Paulo pela USP e no Rio de Janeiro pela UFRJ.
  • European Universities Continuing Education Network - EUCEN, com sede em Bruxelas (Bélgica), abrangendo 120 universidades. Cabe observar que este ano de 1996 foi declarado pela Comunidade Européia o "Ano Europeu da Aprendizagem Permanente". Realiza dois eventos anuais, sendo o próximo em Lausanne (Suiça), no período de 2 à 5.4.97, sob o tema "Novo Milênio: o desafio da Concorrência para a Educação Continuada Universitária". Cabe observar que na Europa as universidades constituem o quarto ofertante de educação continuada, sendo superadas pela próprias empresas, pelos fornecedores e pelas consultoras.
  • National University Continuing Education Association - NUCEA, com sede em Washington (EUA). Apesar do nome (trata-se de entidade criada em 1915), extrapola as fronteiras dos Estados Unidos. Tem algumas publicações relevantes na área.
  • World Lifelong Learning Initiative - WLLI, com sede em Bruxelas (Bélgica). Realizará seu segundo congresso mundial em Ottawa (Canadá), no período de 23 a 26.3.97, sob o tema "Investindo no Potencial Humano: Fazendo Escolhas Estratégicas".
  • Rede Latino-Americana de Educação Continuada, entidade em formação com sede em Bogotá (Colômbia). Derivada da iniciativa de cooperação em educação continuada do Programa Columbus, a Rede germinou numa primeira oficina organizada em 1994 pela USP.


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