Artigo do programa
O futuro da engenharia e o engenheiro do futuro

O Futuro da Engenharia e o Engenheiro do Futuro

Sinval Zaidan Gama

Ao pensarmos em futuro o que nos vem à mente de imediato é a palavra mudança. Os diversos segmentos têm sido levados, ao longo do tempo, a repensar suas situações face às mudanças que vêm ocorrendo. A particularidade do momento atual é que a velocidade das mudanças vem sendo superior à das respostas dos segmentos, caracterizando o "espírito do correr atrás", ou mesmo de adequar sempre o cenário ocorrido ao previsto.

As empresas que têm forte vínculo com a engenharia e os seus profissionais engenheiros vêm buscando alternativas para minimizar este diferencial.

A abordagem da análise da ambiência, requisitos demandados e estratégia de ação formam um triângulo que tem, no seu centro de importância, o Futuro da Engenharia e o Engenheiro do Futuro.


Grandes mudanças e desafios

  • Evolução acelerada do conhecimento humano
  • Pessoas cada vez mais conscientes de seus direitos e do valor que têm
  • Acesso a informações aumentando o poder do indivíduo
  • Alterações radicais nos processos educacionais
  • Novos tipos de trabalho, profissões, especialização
  • Crescente preocupação com conservação ambiental
  • Consumidores cada vez mais exigentes
  • Maior número de concorrentes
  • Competição por talentos


Ambiência

Macro tendências
Como é do conhecimento de todos, o contexto atual em que as empresas estão inseridas está em ebulição, com transformação de paradigmas. Para abordar apenas os principais, citamos:


Papel do governo e iniciativa privada

Há, hoje em dia, uma tendência na Europa, Japão e América Latina para o afastamento dos governos da atividade empresarial, com a iniciativa privada assumindo, cada vez mais, estas funções, mas com abordagem diferente daquelas.

Os executivos, em parte engenheiros, e os engenheiros que executam os processos foram formados em escola em que trabalhar para o governo era diferente de trabalhar para a iniciativa privada. Portanto, faz-se necessária uma adequação à nova realidade em que, além de colocar toda sua experiência acima do bipolarismo, deve-se tentar convergir para os aspectos positivos das duas abordagens, tentando gerenciar as mudanças de pontos contraditórios.

A obra a qualquer preço para atingir o objetivo desejado versus a obra imprescindível só se tiver retorno econômico, também é mais um desafio da ação do engenheiro.


Abordagem econômica

A globalização em curso da economia é fator de impacto nas empresas. A volatilidade dos capitais na busca de maior retorno e menor risco, fazem com que os empreendimentos tenham análise abrangente. Um empreendimento em uma região é analisado comparativamente a outros e aquele em que os resultados forem mais competitivos, na relação retorno x risco, certamente será priorizado, fazendo com que se busque uma visão global das fronteiras.

A equação de resultados se transformou da definição do preço a partir dos custos adicionado ao lucro pretendido para aquela onde o lucro é resultante do preço ofertado menos os custos incorridos. Este é mais um grande desafio para a empresa e engenheiros.


Geopolítica

A formação de blocos econômicos e a diminuição das alturas das barreiras entre regiões, países ou continentes é um fato.

A possibilidade de empresas e engenheiros brasileiros atuarem nos países do Mercosul tem relação idêntica com os estrangeiros que vierem a exercer suas atividades no Brasil.

O fator diferenciador além da disponibilidade de mercado, certamente será a competência. Outro ponto de foco é o Projeto de Reestruturação dos Países Africanos de Língua Portuguesa, já em desenvolvimento, que abre, pela facilidade de idioma e cultura, grandes possibilidades de parceiros.


Racionalismo x holismo

Os executivos das empresas e profissionais de engenharia, durante muito tempo, foram formados com premissas exclusivas da abordagem do racionalismo.

O uso apenas de fatos e dados, equações com soluções previsíveis e racionalismo, foram constantes na vida do profissional da área tecnológica, o que levou ao desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro, em detrimento do direito.

Nesta formação não se podia esperar que estes profissionais adicionassem à sua competência a visão humana, de negócios, de arte, etc.

As novas gerações certamente não terão este vício de formação, independente da nossa vontade, até porque os joystiscks, os games, a interatividade e a inclusão já são uma realidade.


Tecnologia

O avanço tecnológico será fortemente abordado ao longo das diversas palestras deste ciclo de debates. A tecnologia dos materiais, da informação e da gestão cada vez mais será um fator diferenciador.

A transformação tecnológica, inclusive, influencia muito mais os aspectos anteriores, do que é por eles influenciada.


Macrofatores de monitoramento

Tendo em vista estas macro-tendências, o planejamento das empresas, especialmente aquelas que têm longo prazo de maturação deverão, através de uma administração estratégica, estabelecer macro-fatores de monitoramento, dos quais listamos alguns de importância:

  • Integração Regional – inicialmente a tendência com o Mercosul e possivelmente, com os países africanos de Língua Portuguesa.
  • Organização da Economia Mundial – fluxo de capitais, mercado financeiro e política de agências financeiras multilaterais.
  • Aspectos Políticos Legais – mudanças institucionais, especialmente a regulamentação dos serviços públicos.
  • Conjuntura Sócio-Econômica – evolução das finanças públicas, crescimento econômico, distribuição de renda, o nível de emprego e a abertura do mercado nacional à concorrência internacional.
  • Recursos Humanos – qualificação e disponibilidade de recursos humanos especializados para as empresas.


Requisitos demandados

A busca de vencer estes desafios, tem levado a demandas que necessitam ser contempladas, tais como:


Empresa

  • Aprofundamento do conhecimento e a ampliação do espectro de utilização dos materiais, máquinas, equipamentos e processos.
  • Incorporação, com rapidez ao seu domínio, das inovações tecnológicas que vêm sendo disponibilizadas.
  • Elaboração de projetos e obras de engenharia com adequacidade e rapidez, suplantando os anseios dos clientes.
  • Disponibilização, através da educação continuada, para seus profissionais, dos conhecimentos necessários.
  • Forte relação com as universidades.


Engenheiros

  • Além da forte formação técnico-teórica, outros requisitos, como conhecimento de máquinas, equipamentos, processos, montagem e conhecimento mínimo das práticas que vai exercer.
  • Além da formação técnica, outros conhecimentos como: gestão, negócios, direito, psicologia, meio ambiente, projetos, tecnologia da informação, línguas estrangeiras, criatividade e visão humana.
  • Além da forte base científica, a atitude de permanente busca de aperfeiçoamento.
  • Várias áreas de conhecimento, misturando, simultaneamente, conceitos do que seria específico da profissão com os das ciências básicas.
  • Forte capacidade de adequação às mudanças e espírito para enfrentar os desafios que se apresentem.
  • Consciência de que, no final do curso, há o início de uma nova fase de educação, para que o conhecimento não se torne obsoleto já em sua fase de formação.


Universidades

  • Participação efetiva e com influência na transformação do país, pelas suas características acadêmicas, laboratoriais e de alunado numeroso.
  • Influência na solução de problemas de ponta.
  • Forte relação com as empresas, diminuindo/extingüindo o vácuo existente e só contemplado nos cursos de pós-graduação, bem como eliminando o ônus das empresas em arcar com esta etapa adicional.
  • Introdução acelerada de novas técnicas de ensino e aprendizagem com novo material didático e não convencional (vídeos, CD-ROM, TV interativa, softwares, etc.), tanto para o alunado como para a educação continuada.
  • Modernização dos cursos de graduação e pós-graduação, introduzindo nos primeiros os atributos desejados, transferindo dos segundos, as ações de formação e estabelecendo novos perfis, em conjunto com as empresas que irão utilizar os novos profissionais.


Estratégia de ação para o setor elétrico

A principal estratégia para vencer o desafio de contemplar as demandas requeridas é o estabelecimento de forte aproximação universidade/empresa, através de parcerias e cooperação mútua, e o uso freqüente de fóruns de troca de experiência e informação de necessidades.

O caso particular do Setor Elétrico Brasileiro demonstra o longo caminho a percorrer. Já no final da década de 70, quando da execução do Plano 2000 - Nacional de Energia Elétrica, elaborado pela Eletrobrás, verificou-se que a evolução tecnológica, as exigências da sociedade e a velocidade das mudanças, sinalizavam a necessidade de aprofundamento dos futuros quadros do Setor Elétrico.

Não houve, naquela ocasião, nem mesmo depois, forte interação setor x universidades, provocando os vazios a posterior. Pesquisa realizada em 1990 em 46 instituições de ensino de engenharia nos campos de engenharia civil, elétrica, eletrônica e mecânica mostrava uma queda acentuada na formação de engenheiros.

Percentual de Queda Campo
25% mecânica
24% civil
26% eletrônica
2% eletrotécnica

O quadro evidencia uma clara crise, podendo-se acrescentar que o estudante, na escolha da profissão, leva em conta, entre outras coisas, as tendências de mercado, verificando se uma profissão é mais promissora que outra.

Até o momento, parte das empresas não sinalizaram claramente suas necessidades. Com o horizonte atualizado através do Plano 2015, temos o seguinte quadro:

  • Mantendo-se o status atual, para atender ao crescimento do setor serão necessários 485.000 empregados. Dobrando-se a produtividade do setor, chegaremos a precisar de 240.000 empregados, sendo 50.000 de nível superior e desses, 26.000 engenheiros contra o efetivo atual de cerca de 18.000 engenheiros.
  • Adiciona-se a este fato a renovação dos quadros, que tem como referência o ano de 1995.
  • Existe a necessidade de diagnóstico das perspectivas de formação do quadro no perfil desejado e na qualificação requerida, bem como no esforço do sucesso da educação continuada.
  • Também adiciona-se a este quadro o desconforto atual surgido entre as ofertas na educação continuada para o setor elétrico e a correspondente baixa resposta, indicando a urgente avaliação do portfólio ofertado e o diagnóstico das causas da ausência.
  • Outra constatação é a concentração de ofertas de treinamento na região Sul/Sudeste e em algumas entidades, necessitando esforços conjuntos das empresas e universidades para modificação deste quadro.

Com este objetivo, a Eletrobrás elaborou projeto, ainda em fase de consolidação de parcerias, para o estabelecimento das proficiências humanas estratégicas para o setor elétrico, que visa delinear o conjunto de competências, habilidades e conhecimentos necessários para o profissional do setor.

Além do desenvolvimento deste projeto será dada continuidade às parcerias hoje já existentes de:

  • estágios para estudantes nas empresas do Setor;
  • visitas técnicas;
  • promoção de cursos;
  • patrocínio de seminários;
  • capacitação de docentes em áreas de interesse do setor;
  • apoio à edição de literatura e materiais didáticos pedagógicos;
  • apoio a teses de doutorado e mestrado de interesse do setor.


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