A globalização e a situação da indústria e da tecnologia no Brasil

A globalização, considerada como um fato novo, na realidade teve início na primeira metade deste século, com a disseminação de empresas de grande porte e teve grande crescimento após a segunda guerra mundial com as empresas transnacionais. Ganhou novo impulso nos últimos dez/quinze anos, com o desenvolvimento dos mercados regionais.

O que é esse fenômeno? Trata-se da busca de mercados em escala global, planetária, com base em escala produtiva também global e, sobretudo, numa capacidade financeira que ultrapassa a capacidade da própria empresa. Uma das suas características principais é a grande concentração de riqueza e poder.

Os principais atores não são os governos nacionais e sim os grandes conglomerados empresariais que os submetem a pressões contraditórias.

A nova ordem mundial colocou, de um lado, os países de desenvolvimento tardio e, de outro, os que fazem parte do processo de desenvolvimento desde os séculos 16 e 17. E dentro dos próprios países, mesmo aqueles mais desenvolvidos, as minorias ricas ficam cada dia mais ricas e se expandem os núcleos de pobreza , enquanto nos países emergentes convivem com o estado tribal.

A Organização das Nações Unidas constatou que mais de um bilhão de pessoas vive abaixo do nível de pobreza e mais de três bilhões detêm apenas 5% da riqueza mundial.

Em 93, as trinta mil maiores organizações controlavam mais da metade da produção mundial, mais de 2/3 do comércio mundial e mais de 3/4 das transações financeiras. O volume de recursos manejados por esses conglomerados ultrapassa mais de cem vezes os controlados por todos os bancos centrais. A cada dia, mais de um trilhão de dólares passa pelo circuito financeiro sem controle de qualquer governo. O poder dos conglomerados aumenta na mesma proporção em que diminui o poder dos Estados.

O problema mais grave é o desemprego que se alastra com a globalização. Nos países da OCD ( Organização dos Países Desenvolvidos ) já chegam a quarenta milhões os desempregados e não há qualquer previsão de que essa tendência seja revertida.

Qual a saída? Existem perspectivas. Começa pela necessidade dos setores mais esclarecidos fazerem um esforço de interpretação do processo que estamos vivendo. De um lado, identificar os efeitos negativos e tentar minimizá-los e, de outro, ver a série de novas oportunidades que se abrem e tentar maximizá-las, fato que está hoje favorecido pela democratização das comunicações.

No novo mapa da produção mundial que se está desenhando, a contradição está entre expansão e ameaça. Neste contexto, a situação da indústria brasileira é de desvantagem. Na primeira fase do processo, o Brasil se encontrava numa situação de grave instabilidade econômica. De uma economia protecionista, com reserva de mercados, passou a ser uma das mais abertas do mundo.

Comparando os indicadores econômicos atuais com os da década de 80, vê-se que de 85 a 92 houve uma queda de 20% na produção industrial e que apenas em 96 se conseguiu retomar o nível de produção de 88.

Outro fator importante para se compreender o dilema atual é que a taxa de investimento permanece baixa, praticamente estagnada. Enquanto em 70 essa taxa correspondia a 25% do PIB, em 80 era de 15% e em 96 não passa de 16,5%.

O processo de restruturação da indústria brasileira tem três características:

  1. melhoria no desempenho produtivo - prazos de produção, entrega etc.;
  2. já nos aspectos captação de tecnologia, esforço na pesquisa e no treinamento não mostra o mesmo desempenho, mas, ao contrário, estagnação;
  3. as empresas resistem a investir em aumento da capacidade produtiva. Todo investimento é para substituição de equipamento e modernização de métodos.

Diante da maior exposição ao ambiente competitivo, entre os grandes grupos de setores industriais, o de comodities é o que vai melhor, embora ainda devesse buscar mais valor agregado.

O setor de bens duráveis é o mais globalizado. A desvantagem está na divisão do trabalho. Ou seja, os novos investimentos estão relacionados com o dinamismo do mercado interno e não para fazer do país um exportador.

Os setores tradicionais, como o de calçados e têxteis, são os que mais estão sofrendo com a globalização. Não foi possível evoluir para uma produtividade competitiva. A tecnologia e as técnicas gerenciais estão defasadas. Expostos à concorrência, não têm tido capacidade de enfrentá-la.

Por fim, com os difusores de progresso técnico, como os eletroeletrônicos, informática, biogenética etc., o que ocorre é uma "desindustrialização", pois não está sendo possível suprir o setor com capacidade de inovação para competir.

Leia o artigo de Henrique Rattner.


Os conferencistas

Henrique Rattner e David Kupfer

Veja um perfil de Henrique Rattner.

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