Waldimir Pirró
e Longo
It is estimated that more than
eighty per cent of the scientific and technological knowledge we
use today was produced after the Word War II. It is antecipated
that if this dynamics is not disturbed, in the next decade
approximately fifty per cent of the products we will be using
would not have been invented yet. This astonishing dynamics has
profound impact over all social institutions: family, church,
Armed Forces, companies, schools, etc. Attention is called to the
continuous changes of knowledge and skills required by the labour
force. In this scenario, the engineers play an important role
since they are involved in almost all development of new
technologies and in the final production of goods and services.
Engineers are permanently challenged by the progress they
themselves promote, risking to become obsolete right after
leaving the university if not conveniently trained to face this
changing environment. Thus, it should be proposed that the
universities should reengineer their engineering
courses in order to prepare professionals that are intellectually
equipped to deal with this reality .Several suggestions were made
regarding content of curricula and methodology to be considered.
Engineering, education, technology impact.
Os grandes desafios enfrentados pelos países estão hoje
intimamente relacionados com as contínuas e profundas
transformações sociais ocasionadas pela velocidade com que
tem sido gerados novos conhecimentos científicos e
tecnológicos, sua rápida difusão e uso pelo setor
produtivo e pela sociedade em geral. Atualmente, as complexas
demandas das sociedades modernas são atendidas por
tecnologias crescentemente resultantes da aplicação de
conhecimentos científicos. A partir da busca e a
apropriação sistemática, e bem sucedida, de conhecimentos
científicos para a produção de tecnologias, que passou a
acorrer em larga escala no século dezenove, o conhecimento
científico deixou de ser um bem puramente cultural, para
tornar-se, crescentemente, o principal insumo para o sucesso
econômico. Desde então, estima-se que os conhecimentos
científicos e tecnológicos têm duplicado a cada 10 a 15
anos e que mais de 80% deles foram gerados após a Segunda
Guerra Mundial. A continuar tal dinâmica, dentro de 10 anos,
50% dos objetos que estaremos usando ainda não terão sido
sequer inventados.
As mudanças que vêm ocorrendo tão
rapidamente têm afetado profundamente o homem, o meio
ambiente e as instituições sociais de maneira sem
precedentes na história da humanidade. Particularmente as
instituições têm sofrido enormes impactos provocados pelo
freqüente emprego de novas tecnologias que, via de regra,
alteram hábitos, valores e tradições que pareciam
imutáveis. A introdução de novas tecnologias, quase
sempre, é uma decisão do setor produtivo, não discutido e
não planejado pela sociedade. As alterações ambientais e
comportamentais resultantes são de tal magnitude e, às
vezes, tão inesperadas, que as instituições sociais não
têm conseguido acompanhá-las e adaptarem-se, enfrentando
então, sérias crises. Estão, nesse caso, instituições
como a família, a Igreja, as Forças Armadas e as
universidades. Assim, existe um hiato entre o avanço
científico e tecnológico e a capacidade de organização
dos grupos ou entidades sociais para o trato da nova
realidade.
Por serem fruto de aplicação de conhecimentos
científicos, as tecnologias modernas e seus processos de
produção não são facilmente compreendidos e, portanto,
são extremamente difíceis de serem copiados. Isto é, são
altamente discriminatórios: quem não tiver competência
científica estará condenado à periferia. A geração de
tecnologias de base científica exige grande acúmulo de
capital para investimentos contínuos em pesquisa e
desenvolvimento, envolvimento de cérebros com competência
em amplo espectro de conhecimentos e capacidade gerencial
para produzir novos bens e serviços de elevada qualidade. O
resultado disso tem sido a concentração do poder em todos
os níveis. No setor empresarial, a formação de grandes
conglomerados tecnológicos. De uma certa maneira, a mesma
coisa está ocorrendo ao nível de países. Observa-se neste
final de século, a tendência dos países a aglomerarem-se
em torno de fortes lideranças tecnológicas para formarem
blocos econômicos e, por extensão, políticos e militares.
Diante da competição estabelecida, torna-se também
fundamental o tempo em que as nações, através do conjunto
das suas instituições, entre as quais as universidades e as
empresas, são capazes de transformar uma invenção
resultante de conhecimento científico ou não, numa
inovação, ou seja, na sua aplicação comercial. Um estudo
de 500 inovações ocorridas entre 1953 e 1973 demonstrou que
o tempo médio decorrido entre as invenções e as
respectivas inovações era de 7,7 anos na Inglaterra, 7,4
anos nos EUA, 5,2 anos na Alemanha e de 3,4 anos no Japão. A
capacidade de transformar invenções (suas ou não) em
inovações, a curtíssimo prazo, pode explicar o sucesso de
algumas empresas e de países como o Japão.
Pela sua importância, este fato merece um aprofundamento, em
face do sucesso econômico alcançado por este país,
principalmente, se compararmos o mesmo com o seu maior
competidor, os Estados Unidos da América do Norte (EUA). Os
Estados Unidos investem, aproximadamente, metade dos recursos
mundiais para pesquisa e desenvolvimento experimental
(P&D), possuem a maior infra-estrutura científica e
tecnológica do planeta e o maior e mais exitoso sistema
universitário voltado para a pesquisa. Isto, tem-se
traduzido, por exemplo, no recebimento de mais de 200
prêmios Nobel a partir de 1901. O enorme esforço das suas
empresas em P&D, inclusive na pesquisa básica,
verifica-se pelos elevados investimentos. A título de
ilustração tem-se, por exemplo, os Laboratórios Bell, da American
Telephone and Telegraph (A.T.T.), empresa líder na área
de comunicações, que empregavam, em 1990, cerca de 3.430
Ph.Ds, sendo responsáveis, entre outras coisas, pela
invenção do transistor, do laser, da célula solar, e
produção dos metais superpuros e do primeiro satélite de
comunicações. Na busca da inovação tecnológica,
pesquisadores dos Laboratórios Bell já foram agraciados com
sete prêmios Nobel. Adicionalmente, os EUA dispõem de um
vasto território, dotado de fontes de energia e de terras
propícias à agropecuária, mão-de-obra qualificada em
abundância e grande mercado consumidor. Em contrapartida, o
Japão pouco tem contribuído para o avanço científico,
tendo, até hoje, recebido apenas seis prêmios Nobel (5 de
literatura e paz, e um de física na década de 30!); o seu
sistema universitário, no que diz respeito à pesquisa, é
inferior ao europeu e ao norte-americano. Acrescente-se,
ainda, o seu território pequeno e descontínuo, a
superpopulação, as deficiências em matérias-primas,
energia e alimentos.
Como explicar, então, o sucesso japonês na era da tecnologia de
base científica?
Evidentemente,
existem muitos fatores envolvidos, principalmente
psicossociais, econômicos e políticos que não serão
analisados. Tecnicamente, porém, a explicação está na "engenharia",
que é quem transforma a esmagadora maioria de inventos
oriundos de qualquer área, em bens de serviço, ou seja, em
inovações. A capacidade "engenheirar"
concepções suas ou de outros, primeiro, melhor e mais
barato que os concorrentes é fundamental. Quem "engenheira"
não são, em geral, os cientistas, os prêmios Nobel ou os
Ph.Ds em engenharia, mas sim os engenheiros que estão no
setor produtivo. Competência em engenharia de processos e de
produtos é fundamental e tem sido, no caso japonês,
elemento capaz de superar as suas desvantagens comparativas.
Conforme citado anteriormente, o fator tempo tem sido
decisivo, além da produtividade e da qualidade. A prática
seqüencial de pesquisa, desenvolvimento experimental,
engenharia de produto/processo, produção, etc., utiliza
correntemente na busca da inovação, está ultrapassada.
Tais etapas são hoje integradas, considerando-se,
simultaneamente, todos os problemas envolvidos, encurtando-se
com isso o tempo de criação e uso de um novo bem de
serviço. Está é a origem do que tem sido chamado de
"engenharia simultânea", cuja prática é fator
central para o sucesso numa situação como a atual em que o
ciclo de vida dos produtos é cada vez menor. Assim,
conhecimentos científicos podem dar origem a
revolucionárias tecnologias num tempo menor do que aquele
que levamos para "formar" um engenheiro ou um
sociólogo.
Adicionalmente , é preciso entender que o processo
tecnológico causou profundas alterações no modo de
produção, na distribuição da força de trabalho e na sua
qualificação. Vivemos hoje na era pós industrial na qual,
nos países centrais, mais de 70% da força de trabalho foram
deslocados para o setor terciário cada vez mais bem
tecnificado; entre 20 e 30% permanecem no secundário; e
menos de 5% encontram-se em atividades agrícolas cada vez
mais intensivas em máquinas e técnicas poupadoras de
mão-de-obra não qualificada.
Ocorre ainda que é cada vez maior o número de pessoas que
têm um trabalho mas não necessariamente um emprego,
exigindo delas, habilidades complementares e diversas
daquelas da sua bagagem profissional específica.
Nesta nova realidade ,tornam-se cada vez mais elevadas as
qualificações exigidas para os postos de trabalho em,
qualquer dos setores de produção, fato que coloca uma
grande pressão sobre as necessidades educacionais das
populações. Com as constantes mudanças tecnológicas, os
indivíduos que não as acompanharem, ficarão prematuramente
inabilitados para o trabalho. Serão parte integrante do que
tem sido chamado de desemprego estrutural.
A desqualificação para o mercado de trabalho, seja através
da obsolência ou da má formação escolar, dá origem ao
que tem sido chamado de "analfabetismo
tecnológico". Os analfabetos tecnológicos não
retornarão ou ingressarão adequadamente no mercado de
trabalho nem que a economia cresça e expanda os seus postos
de trabalho.
Inserida nesse cenário, está a universidade, instituição
criada há mais de 700 anos e, também, em constante
evolução. Para cumprir o seu papel nesse mundo cambiante,
firma-se o conceito que a moderna universidade não é mais
tão somente um conglomerado de escolas profissionalizantes.
A universidade contemporânea é peça importante na
geração e difusão do conhecimento, além de ter a função
primordial de preparar cidadãos para a vida, ensinando-lhes,
entre outras coisas, uma profissão. Seu compromisso não é
apenas com o saber consagrado, com a cultura livresca e sua
transmissão mas, principalmente, com a pesquisa e com a
aplicação do conhecimento novo gerado.
Diante do cenário acima exposto e dos desafios enfrentados
pela universidade, avulta a importância da contínua
evolução do ensino e da pesquisa, particularmente, em
engenharia, área mais diretamente envolvida e afetada pelo
avanço tecnológico.
De maneira muito sintética, pode-se afirmar que o engenheiro
deve ser preparado para, durante toda a sua vida
profissional, gerar, aperfeiçoar, dominar e empregar
tecnologias, com o objetivo de produzir bens e serviços que
atendam, oportunamente, as necessidades da sociedade, com
qualidade e custos apropriados.
Para tanto, julgamos que é urgente uma completa revisão
metodológica e de conteúdo nos cursos de engenharia, uma
vez que, nas últimas décadas, as exigências sobre os
engenheiros evoluíram mais rapidamente do que fomos capazes
de incorporar à sua formação.
A título de desafio, alinhamos abaixo alguns tópicos para
reflexão no processo de "reengenharia" do ensino
de engenharia que pregamos veementemente.
Fim da "Formatura"
Deixar
claro que daqui pra frente, não haverá mais formação
profissional terminal. A chamada formatura não tem
significado concreto.
Professor Estudante
Deve
ficar claro que o professor é também "estudante".
Ele também não está "formado". Todos os docentes
devem ser treinados para a pesquisa e inovação.
Intransigência com qualidade
Hoje
não basta ser bom. É preciso ser ótimo. A competição
não tem pais fronteiras.
Nem politécnico, nem
especialista: formação personalizada
Nem saber um pouco de tudo, nem tudo de quase nada. É
necessária formação multidisciplinar aprofundada,
obedecendo à vocação de cada um. Para tanto, é preciso
desregulamentar as formações profissionais e proporcionar
aos alunos um preparo individualizado (taylor made).
Pacote multidisciplinar que atenda cada caso. São
exigências a visão sistêmica e boa comunicação oral e
escrita.
Aprender a aprender
Talvez
a mudança metodológica mais importante para enfrentar a
dinâmica científica e tecnológica, é evitar a
obsolência. Mais importante do que ensinar somente as
tecnologias em uso. Mudança radical no processo
ensino-apredizado. O aluno deve aprender a aprender sozinho.
Metodologia de avançar no
desconhecido
Fundamental
praticar a metodologia da pesquisa, familiarizando o aluno
com a ambiência científica e tecnológica (seminários,
revistas, escrito técnico-científica, ética, valores,
tradições, familiarização de informações, etc.). Bolsas
de iniciação científica.
Saber fazer
Estudar,
pesquisar, realizar na prática. O engenheiro deve ser
preparado para fazer (ousando!). Deve ser desafiado a
"fazer" na universidade e/ou em treinamento no
setor produtivo. Bolsas de iniciação tecnológica.
Estágios supervisionados no setor produtivo. Exercício
através do Projeto final de Curso multidisciplinar e, se
possível, realizando-o concretamente.
Forte embasamento em ciências e
matemática
Ponto
central da formação profissional. Imprescindível que seja
de alta qualidade.
Evitar compartimentação do saber
A natureza é "multidisciplinar" e complexa.. Nós é
que inventamos os departamentos e as disciplinas. Ensaiar
novas maneiras de estudar e entender os fenômenos e suas
implicações e aplicações.
Domínio das facilidades
oferecidas pela informática
Ferramenta
tão corriqueira quanto foi a régua de calculo no passado.
Domínio de línguas mais usuais
no meio científico e tecnológico
De preferência inglês.
Capacidade gerencial e empreendedora
Capacidade
de juntar meios de toda a natureza (Humanos, materiais etc.)
e otimizar o seu emprego no "fazer acontecer",
criar, produzir. Exercício de liderança consciente.
Trabalhar em equipe.
Visão humanística diante da
profissão e dos interesses da sociedade
O homem, a sociedade e o bem comum devem sempre estar
presente.
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